Quando a gente para pra analisar o DNA da Nintendo, fica bem claro que a empresa tem um jeito muito próprio de construir mecânicas. É uma mistura impecável de acessibilidade com um nível de liberdade que pode beirar o caótico. Para entender como eles chegaram no atual ápice do design de mundo aberto, vale muito a pena dar um passo atrás e olhar para um dos mascotes mais versáteis da casa. O Kirby, aquela famosa bolota rosa da HAL Laboratory, sempre serviu como um verdadeiro campo de testes para ideias malucas que depois desaguariam em conceitos maiores.
Lá nas antigas, na era dos 8-bits, a franquia já mostrava a que veio. O clássico Kirby’s Adventure (1993) no Nintendinho foi apenas o segundo título da série, mas teve o peso de introduzir a icônica habilidade de cópia. A sacada de engolir os inimigos para roubar e usar os poderes deles mudou totalmente a forma de interagir com o cenário. Pouco tempo depois, a tela verde do Game Boy recebeu Kirby’s Dream Land 2 (1995), que adicionou uma nova camada estratégica colocando três aliados animais na jogada. Dependendo do bicho que o Kirby montava, a dinâmica de movimentação e os poderes mudavam drasticamente, obrigando o jogador a pensar de forma diferente para atravessar terrenos específicos e recuperar as Pontes do Arco-Íris.
Mas foi nos portáteis de duas telas que os desenvolvedores realmente chutaram o balde. Kirby Mass Attack (2011) abriu mão da jogabilidade tradicional no direcional e botou a galera para controlar até dez Kirbys simultaneamente usando apenas a caneta stylus na tela sensível ao toque do Nintendo DS. Era uma bagunça deliciosa onde você arremessava a sua horda de personagens para resolver puzzles. Já no 3DS, a imersão visual tomou a frente. Kirby: Triple Deluxe (2014) brincou absurdamente com os planos de fundo e o 3D sem óculos do console, além de trazer minigames excelentes — um de ritmo estrelado pelo Rei Dedede e outro na pegada de Super Smash Bros. Isso sem falar da forma Hypernova, que deixava o Kirby aspirar pedaços inteiros da fase.
Seguindo essa linha de aclamação no 3DS, é impossível não exaltar Kirby: Planet Robobot (2016). Dar um traje robótico mecha pro Kirby descer a porrada numa corporação alienígena foi genial. O traje permitia destruir obstáculos pesados e copiar habilidades numa versão mecanizada, criando quebra-cabeças que brincavam muito com os elementos em 2D e 3D do level design. E quando o assunto é sentar no sofá com os amigos, Kirby’s Return to Dream Land (2011) no Wii entregou um coop local pra quatro pessoas que virou queridinho imediato. Empilhar a galera — King Dedede, Meta Knight e o Bandana Waddle Dee — pra soltar golpes especiais e compartilhar cura ajudou o título a envelhecer tão bem que ganhou um remake merecidíssimo para o Switch em 2023.
Toda essa cultura enraizada de “e se a gente der as ferramentas e deixar o jogador se virar?” não fica restrita aos jogos de plataforma coloridos. Na verdade, essa mesmíssima filosofia de experimentação e liberdade foi o que pavimentou o caminho para uma das maiores obras-primas da indústria recente. Neste 12 de maio, completam-se exatos três anos desde que a Nintendo virou o mercado de cabeça para baixo com The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom.
A continuação direta de Breath of the Wild não se limitou a surfar no hype do jogo de 2017 que já havia redefinido o escopo de um mundo aberto. Eles pegaram o mapa de Hyrule e encurralaram a imaginação dos jogadores adicionando duas fatias colossais de exploração: o Céu e as temidas Profundezas. O Link precisava encontrar a Princesa Zelda e frear o Demon King, claro, mas a estrela do show foi o sistema de construção. Aquele espírito do Kirby de engolir e absorver tudo ao redor evoluiu para uma mecânica onde você podia simplesmente fundir quase qualquer item do jogo.
A comunidade foi encorajada a “quebrar” o game. A galera construiu de pontes improvisadas para resolver enigmas a robôs gigantes e veículos de destruição em massa. O impacto disso foi imediato e arrebatador, garantindo ao título um estrondoso 96 no Metacritic e um empate técnico com o peso-pesado Baldur’s Gate 3 como os jogos mais aclamados de 2023. O reflexo desse gamedesign livre de amarras — que foge daquela velha fórmula de mapa cheio de listas de tarefas — tem influenciado gigantes como Elden Ring e lançamentos como Crimson Desert.
E o ciclo dessas lendas não parece desacelerar. Com o aguardado lançamento do Nintendo Switch 2 no ano passado, em 2025, os fãs já puderam botar as mãos em edições parrudas de BotW e TotK rodando com taxa de quadros bem superior, resolução melhorada e funcionalidades inéditas como as Zelda Notes. Agora, a bola da vez rola solta nos bastidores: os vazamentos apontam que um remake do lendário Ocarina of Time já está no forno, com janela de lançamento supostamente para o final de 2026. Se a gigante japonesa mantiver esse ritmo de casar nostalgia com sistemas que dão total controle criativo para quem tá com o controle na mão, a gente só pode esperar mais uma aula de design vindo por aí.